EBITDA, EBIT e Lucro Líquido: o que são, diferenças e qual usar?

EBITDA, EBIT e Lucro Líquido: o que são, diferenças e qual usar?

Uma empresa pode apresentar R$ 750 mil de EBITDA, R$ 450 mil de EBIT e R$ 152 mil de lucro líquido no mesmo ano.

Qual desses números mostra quanto ela realmente lucrou?

Os três podem estar corretos.

A diferença é que EBITDA, EBIT e lucro líquido medem o resultado da empresa em momentos diferentes da Demonstração do Resultado do Exercício (DRE). Cada indicador considera determinadas despesas e deixa outras de fora.

É justamente por isso que olhar apenas para um deles pode passar uma impressão bastante diferente sobre a rentabilidade de uma empresa.

De forma resumida, o EBITDA mostra o resultado antes de juros, impostos sobre o lucro, depreciação e amortização. O EBIT já considera depreciação e amortização, mas ainda desconsidera a estrutura de financiamento e os tributos sobre o lucro. O lucro líquido chega ao resultado final depois desses efeitos.

Isso não significa, porém, que o lucro líquido seja sempre o melhor indicador. A escolha depende da pergunta que você está tentando responder.

E quando a análise é feita para descobrir quanto uma empresa vale, essa diferença se torna ainda mais importante.

Qual é a diferença entre EBITDA, EBIT e lucro líquido?

A maneira mais simples de entender é observar o que já foi descontado em cada etapa.

IndicadorDepreciação e amortizaçãoJurosImpostos sobre o lucroO que ajuda a analisar
EBITDANãoNãoNãoDesempenho operacional antes desses efeitos
EBITSimNãoNãoResultado operacional reconhecendo depreciação e amortização
Lucro líquidoSimSimSimResultado contábil final da empresa

Imagine esses indicadores como três fotografias tiradas em pontos diferentes da DRE.

No EBITDA, algumas despesas importantes ainda não apareceram.

No EBIT, depreciação e amortização já foram reconhecidas.

No lucro líquido, entram também os efeitos financeiros e os impostos sobre o lucro.

Por isso, é perfeitamente possível uma empresa apresentar um EBITDA aparentemente excelente e terminar o exercício com um lucro líquido muito menor.

Vamos entender cada indicador separadamente.

O que é EBITDA?

EBITDA é a sigla para Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization.

Em português, o termo equivalente é LAJIDA: Lucro Antes dos Juros, Impostos, Depreciação e Amortização.

O indicador procura mostrar o resultado da operação antes de quatro grupos de efeitos:

juros, impostos sobre o lucro, depreciação e amortização.

Uma das formas de calcular é:

EBITDA = EBIT + Depreciação + Amortização

Vamos usar uma empresa fictícia para entender melhor.

Ela possui:

Receita líquida: R$ 5.000.000
Custos e despesas considerados no EBITDA: R$ 4.250.000
EBITDA: R$ 750.000

A margem EBITDA será:

R$ 750.000 ÷ R$ 5.000.000 = 15%

À primeira vista, temos uma empresa gerando R$ 750 mil de resultado sobre R$ 5 milhões de receita líquida.

Mas existe um detalhe importante: ainda há bastante coisa fora dessa conta.

O EBITDA é lucro?

O EBITDA é uma medida de resultado, mas não é a mesma coisa que lucro líquido.

Isso acontece porque despesas que afetam o resultado final da empresa ainda não foram consideradas.

Se a empresa possui uma dívida elevada, por exemplo, os juros dessa dívida não reduzem o EBITDA.

Da mesma forma, uma empresa que utiliza máquinas caras pode apresentar um EBITDA elevado mesmo tendo despesas relevantes de depreciação.

O indicador não está errado. Ele simplesmente está respondendo a uma pergunta diferente.

EBITDA é fluxo de caixa?

Também não.

Esse é um dos erros mais comuns na interpretação do indicador.

O EBITDA não mostra necessariamente quanto dinheiro entrou no caixa da empresa nem quanto ficou disponível para os sócios.

Uma empresa pode apresentar EBITDA positivo e, ao mesmo tempo, consumir caixa porque precisa:

aumentar estoques, financiar clientes, comprar máquinas, realizar outros investimentos ou pagar dívidas.

Portanto:

EBITDA não é sinônimo de fluxo de caixa livre.

Essa distinção se torna particularmente importante em empresas que precisam reinvestir constantemente para continuar operando.

Por que o EBITDA pode fazer uma empresa parecer mais lucrativa?

Imagine uma indústria que depende de máquinas caras para produzir.

As máquinas foram compradas anos atrás e continuam sendo utilizadas para gerar receita.

Elas se desgastam, perdem valor econômico e eventualmente precisarão ser substituídas.

Só que esse desgaste não aparece no EBITDA.

É justamente aqui que surge uma das principais críticas ao uso isolado desse indicador.

Duas empresas podem apresentar o mesmo EBITDA, mas uma delas precisar investir muito mais dinheiro em máquinas, equipamentos e outros ativos para continuar funcionando.

Do ponto de vista econômico, são situações bastante diferentes.

Para começar a enxergar esse efeito, precisamos descer uma linha na análise e chegar ao EBIT.

O que é EBIT?

EBIT significa Earnings Before Interest and Taxes.

Em português, utiliza-se também a sigla LAJIR: Lucro Antes dos Juros e Impostos sobre o lucro.

A diferença fundamental em relação ao EBITDA é simples:

o EBIT já considera depreciação e amortização.

Assim:

EBIT = EBITDA – Depreciação – Amortização

Voltando ao nosso exemplo, a empresa possuía R$ 750 mil de EBITDA.

Agora vamos considerar que ela reconheceu durante o exercício:

Depreciação e amortização: R$ 300.000

Teremos:

R$ 750.000 – R$ 300.000 = R$ 450.000 de EBIT

A margem EBIT será:

R$ 450.000 ÷ R$ 5.000.000 = 9%

A operação que apresentava uma margem EBITDA de 15% passa a apresentar uma margem EBIT de apenas 9%.

Nenhum dos dois cálculos está errado.

Eles apenas enxergam a empresa de formas diferentes.

Por que a depreciação importa na análise de uma empresa?

Existe um argumento bastante comum de que a depreciação deveria ser ignorada porque não representa uma saída de dinheiro naquele momento.

Contabilmente, isso faz sentido.

Se uma empresa comprou uma máquina no passado, reconhecer R$ 100 mil de depreciação neste ano não significa necessariamente que R$ 100 mil saíram da conta bancária agora.

O problema aparece quando essa ideia é levada longe demais.

A máquina não dura para sempre.

Em algum momento ela poderá precisar de manutenção pesada, modernização ou substituição.

Por isso, principalmente em empresas intensivas em capital, ignorar completamente a depreciação pode criar uma visão otimista demais da rentabilidade.

Depreciação é igual a CAPEX?

Não.

Essa distinção também é importante.

A depreciação é uma despesa contábil relacionada à alocação do valor de determinados ativos durante sua vida útil.

CAPEX, por outro lado, representa os investimentos efetivamente realizados pela empresa em ativos de longo prazo, como máquinas, equipamentos, instalações e determinadas tecnologias.

Em um determinado ano, uma empresa pode reconhecer R$ 300 mil de depreciação e investir R$ 700 mil em novos equipamentos.

Em outro, pode reconhecer os mesmos R$ 300 mil de depreciação e realizar quase nenhum investimento.

Por isso, embora o EBIT reconheça algo que o EBITDA deixa de fora, ele também não substitui uma análise de fluxo de caixa e reinvestimentos.

O que é lucro líquido?

Depois do EBIT, ainda faltam componentes importantes para chegar ao resultado final da empresa.

Entre eles está o resultado financeiro.

Vamos continuar com nosso exemplo.

A empresa tinha:

EBIT: R$ 450.000

Agora suponha que ela tenha:

Despesas financeiras: R$ 250.000

Depois dessas despesas, o resultado antes dos impostos cai para:

R$ 450.000 – R$ 250.000 = R$ 200.000

Para simplificar o exemplo, considere uma empresa no Lucro Real e, sobre essa base, R$ 30 mil de IRPJ e R$ 18 mil de CSLL.

Temos R$ 48 mil em tributos sobre o lucro.

Portanto:

R$ 200.000 – R$ 48.000 = R$ 152.000 de lucro líquido

A mesma empresa que apresentava R$ 750 mil de EBITDA termina o exercício com apenas R$ 152 mil de lucro líquido.

EBITDA de R$ 750 mil pode virar lucro líquido de R$ 152 mil?

Sim. E o nosso exemplo mostra exatamente como isso acontece.

EtapaValor
Receita líquidaR$ 5.000.000
EBITDAR$ 750.000
(-) Depreciação e amortizaçãoR$ 300.000
EBITR$ 450.000
(-) Despesas financeirasR$ 250.000
Resultado antes dos impostosR$ 200.000
(-) IRPJ e CSLL do exemploR$ 48.000
Lucro líquidoR$ 152.000

A margem EBITDA dessa empresa é de 15%.

A margem EBIT é de 9%.

Já a margem líquida fica próxima de 3%.

É uma diferença enorme para a mesma empresa, no mesmo exercício e utilizando os mesmos números contábeis.

O que mudou foi somente quanto da história já está sendo considerado em cada indicador.

EBITDA, EBIT ou lucro líquido: qual é mais importante?

Não existe uma resposta única.

O indicador mais útil depende do que você quer descobrir.

Quando olhar o EBITDA?

O EBITDA pode ser útil quando o objetivo é observar o desempenho da operação antes dos efeitos da estrutura de financiamento, dos impostos sobre o lucro e da depreciação e amortização.

Também pode facilitar determinadas comparações entre empresas.

O cuidado está em não transformar essa simplificação em uma análise completa.

Uma empresa com EBITDA elevado ainda pode ter dívida excessiva, necessidade pesada de investimentos, grande consumo de capital de giro ou baixa geração de caixa.

Quando olhar o EBIT?

O EBIT costuma ganhar relevância quando queremos analisar a rentabilidade operacional sem ignorar completamente o consumo dos ativos utilizados para gerar receita.

Isso pode ser especialmente importante em indústrias, transportadoras, empresas com frota própria e outros negócios que dependem fortemente de ativos físicos.

Ele também possui uma vantagem importante para determinadas análises de valuation: ainda não incorpora diretamente a maneira como a empresa decidiu financiar sua operação.

Quando olhar o lucro líquido?

O lucro líquido é importante quando queremos saber qual foi o resultado contábil final depois de considerar despesas operacionais, resultado financeiro, depreciação, amortização e tributos sobre o lucro.

Mas nem por isso ele conta toda a história econômica do negócio.

Uma empresa pode apresentar lucro líquido positivo e mesmo assim enfrentar problemas de caixa.

Também pode existir diferença relevante entre o lucro apresentado na DRE e o caixa efetivamente disponível para distribuição aos sócios.

É por isso que analisar uma empresa apenas pela última linha da DRE pode ser tão perigoso quanto analisar apenas seu EBITDA.

Qual indicador é melhor para valuation?

Quando a pergunta deixa de ser “quanto essa empresa lucrou?” e passa a ser “quanto essa empresa vale?”, nenhum dos três indicadores deveria ser usado sozinho.

É relativamente comum encontrar avaliações baseadas em um múltiplo aplicado diretamente sobre EBITDA, EBIT ou lucro.

O problema é que o valor econômico de uma empresa depende de muito mais coisas.

valuation especialista

Crescimento, margens, necessidade de reinvestimento, capital de giro, risco e custo de capital são alguns exemplos.

No valuation pelo método do fluxo de caixa descontado, por exemplo, o EBIT pode ser um ponto de partida bastante útil.

Por que o EBIT é usado no fluxo de caixa descontado?

Para calcular o fluxo de caixa livre para a empresa, o objetivo é analisar a geração de caixa dos ativos operacionais independentemente de como eles foram financiados.

Conceitualmente, podemos partir do EBIT e calcular o resultado operacional depois dos impostos, conhecido como NOPAT.

Uma representação simplificada seria:

NOPAT = EBIT × (1 – alíquota de imposto aplicável)

A análise, porém, não termina aí.

Para transformar resultado operacional em fluxo de caixa livre, ainda precisamos fazer outros ajustes, como adicionar despesas não caixa pertinentes, considerar investimentos em ativos e descontar a necessidade adicional de capital de giro.

De forma simplificada:

Fluxo de Caixa Livre para a Empresa = NOPAT + Depreciação e Amortização – CAPEX – Investimento em Capital de Giro

É justamente aqui que fica mais fácil entender por que EBITDA, EBIT e lucro líquido não são sinônimos de fluxo de caixa livre.

Por que o EBIT pode ser mais útil que o lucro líquido no valuation?

Imagine duas empresas praticamente idênticas.

As duas possuem os mesmos produtos, clientes, faturamento, funcionários, máquinas e margem operacional.

A diferença é que uma foi financiada principalmente com capital próprio e a outra possui uma dívida significativa.

A segunda terá mais despesas financeiras e, consequentemente, poderá apresentar lucro líquido menor.

Isso significa necessariamente que seus ativos operacionais são piores?

Não.

A diferença pode estar simplesmente na forma como cada empresa foi financiada.

Ao partir do EBIT para chegar ao fluxo de caixa livre da empresa, conseguimos separar melhor a operação das decisões de financiamento.

A dívida não deixa de importar no valuation. Ela entra em outras etapas da avaliação.

Mas misturar operação e estrutura de capital logo no começo pode dificultar a análise.

EBITDA é bom para calcular o valor de uma empresa?

O EBITDA pode fazer parte de uma avaliação, principalmente quando são utilizados múltiplos como EV/EBITDA.

O problema é concluir que basta descobrir o EBITDA e multiplicá-lo por um número padrão para saber quanto uma empresa vale.

Uma empresa com EBITDA de R$ 1 milhão não vale automaticamente cinco, seis ou dez vezes esse resultado.

O múltiplo depende das características econômicas daquela empresa.

Duas empresas com exatamente o mesmo EBITDA podem justificar valuations bastante diferentes se uma cresce mais, exige menos reinvestimento, possui menor risco ou apresenta vantagens competitivas mais fortes.

O EBITDA pode ser uma informação relevante.

Ele só não deveria ser confundido com o valuation em si.

EBITDA maior significa empresa melhor?

Não necessariamente.

Considere novamente duas empresas com R$ 1 milhão de EBITDA.

A primeira praticamente não precisa investir em ativos físicos e exige pouco capital de giro adicional para crescer.

A segunda precisa comprar máquinas constantemente e financiar estoques cada vez maiores.

Embora o EBITDA seja igual, a quantidade de caixa que sobra depois dos reinvestimentos pode ser muito diferente.

É justamente essa geração futura de caixa, juntamente com o risco envolvido, que ganha importância quando o objetivo é estimar o valor econômico de um negócio.

Afinal, qual número mostra quanto a empresa realmente ganhou?

Essa pergunta parece simples, mas é justamente o que provoca boa parte da confusão.

Se você quer saber o resultado antes de juros, impostos sobre o lucro, depreciação e amortização, olhe o EBITDA.

Se quer observar o resultado operacional reconhecendo depreciação e amortização, mas antes da estrutura financeira e dos impostos sobre o lucro, o EBIT ganha importância.

Se quer saber o resultado contábil final depois dessas despesas, olhe o lucro líquido.

E se quer descobrir quanto caixa o negócio realmente gerou para seus financiadores, será necessário ir além dos três e analisar o fluxo de caixa.

Nenhum deles conta toda a história sozinho.

Perguntas frequentes sobre EBITDA, EBIT e lucro líquido

Qual a principal diferença entre EBIT e EBITDA?

A principal diferença é a depreciação e a amortização. O EBITDA é calculado antes dessas despesas. O EBIT já as considera. Por isso, quando existem depreciação ou amortização, o EBITDA tende a ser maior que o EBIT.

EBITDA é a mesma coisa que lucro líquido?

Não. O EBITDA desconsidera juros, impostos sobre o lucro, depreciação e amortização. O lucro líquido corresponde ao resultado contábil depois que esses e os demais efeitos aplicáveis já foram considerados.

EBITDA é o dinheiro que sobra no caixa?

Não. O EBITDA não considera diversos desembolsos que podem consumir caixa, como investimentos em máquinas e equipamentos, aumento da necessidade de capital de giro, amortização de dívidas e outros pagamentos. Por isso, EBITDA e fluxo de caixa são conceitos diferentes.

EBIT é melhor que EBITDA?

Depende da análise. O EBITDA pode ajudar a observar o desempenho antes de depreciação e amortização. O EBIT reconhece essas despesas e pode ser particularmente relevante em empresas que dependem de ativos para operar. Nenhum dos dois deve ser analisado isoladamente.

Qual indicador usar para calcular o valuation de uma empresa?

Não existe um único indicador capaz de determinar sozinho quanto uma empresa vale. No fluxo de caixa descontado, o EBIT pode servir como ponto de partida para chegar ao NOPAT e, posteriormente, ao fluxo de caixa livre da empresa. Crescimento, reinvestimentos, capital de giro, risco e custo de capital também precisam ser considerados.

EBITDA, EBIT e lucro líquido contam partes diferentes da mesma história

EBITDA, EBIT e lucro líquido não são três maneiras diferentes de calcular a mesma coisa.

Cada indicador responde a uma pergunta diferente.

O EBITDA pode deixar a operação com uma aparência mais favorável porque algumas despesas ainda estão fora da conta.

O EBIT reconhece depreciação e amortização e permite enxergar outra camada do desempenho operacional.

O lucro líquido incorpora também o resultado financeiro e os tributos sobre o lucro, chegando à última linha da DRE.

E nenhum deles, isoladamente, representa necessariamente o fluxo de caixa disponível da empresa.

Essa distinção é ainda mais importante em um valuation.

O valor de uma empresa não depende simplesmente do EBITDA ou do lucro registrado no último exercício. Depende da capacidade do negócio de gerar caixa no futuro, dos investimentos necessários para isso e do risco associado a essa geração de resultados.

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